A volta do “Think Small”
O ano era 1959, dez anos antes de Woodstock e de o homem pisar na lua, o mundo já ansiava pelas mudanças que estariam por vir na psicodélica década de 60. O publicitário Bill Bernbach e sua agência, atual DDB, lançariam o fusca nos Estados Unidos com o lacônico slogan “Think Small”, resultando em um estrondoso sucesso. Foi uma forte evidência de que tal campanha capturou de maneira singular o espírito contracultura da época.
Do mesmo modo que o “Think Small” foi a resposta esperada ao anseio americano por transformações na sociedade, mais informalidade e individualização nas relações humanas, 50 anos depois, a Internet - com o advento maciço da chamada web 2.0 – entrega a mesma resposta. De forma muito mais abrangente e completa, a internet dá sequência ao ciclo de modificações no ideário social jovem que se iniciou na década de 60.
O surgimento da Internet não foi simplesmente uma inovação disruptiva, mas praticamente emerge como o cumprimento da promessa bíblica de sermos todos um. A Internet nos une na medida em que delineia a cada bit a tessitura de nossa existência cada vez mais baseada na era da informação.
A internet, paradoxalmente a tal grandeza sistêmica, permite o prosaico, deixa espaço para que exerçamos nossas individualidades e vontades. Tal como a própria matéria da qual tudo é formado, por átomos e espaços vazios, a rede, além de nós (nos dois sentidos da palavra) e hubs, é preenchida pela externalização de nossos desejos e necessidades.
O espírito subjetivo e subversivo da web se manifesta desde um obscuro tweet para três ou quatro seguidores até um vídeo do YouTube que, do dia para a noite, é visto por milhões. Dá margem ao “broadcast yourself” sendo intrigantemente “small” e “big” ao mesmo tempo.
Profissionais que ainda medem a profundidade do rio da “velha economia” com os dois pés – a velha e, diga-se de passagem, quase falida economia das grandes corporações – se ressentem de sua dificuldade em perceber o “Menos é Mais”. O Bauhaus desse novo mundo em que o individual e o criativo dão lugar ao massificado e dispendioso.
O consumidor, já há alguns anos tenta, muitas vezes em vão, exercer sua cidadania apresentando ao mundo suas próprias opiniões a respeito de produtos, serviços, candidatos e outros elementos sociais passíveis de críticas ou elogios. A massificação, que ainda reina, mas já não mais governa como outrora, gerava tanto ruído que nos era impossível ouvir a voz de um consumidor insatisfeito bradando.
O que a aristocrática e populista mídia não permitia, a web, com sua natureza revolucionária e democrática, o faz, abrindo espaço para que qualquer indivíduo esteja sob os holofotes. Semeia um campo prolífico para que o clamor do indivíduo se torne o desejo de uma multidão.
Assim como a Internet captou (e capta dia a dia a cada busca no Google) o íntimo de uma sociedade global, ela é o meio natural para que o homem se expresse fazendo com que o foco se desloque do macro para o micro – uma renascença digital que volta seus olhos para a valorização do ser.
Façamos bradar o mesmo refrão de 50 anos atrás – voltemos ao espírito libertário da década de 60, mudemos o mundo e pensemos “small”.
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