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Sobre homens, besouros e outros bichos
04/11/2005
O Homem. Há alguns dias, em uma conversa com um amigo meu, em profundo estado de tristeza ele comentou: se eu tivesse dinheiro eu não estaria tão deprimido. O perigoso condicional “se” atacava novamente. Na hora concordei, mais por solidariedade com aquela inconfundível cara de contas a pagar do que propriamente por aceitação. Aquele comentário, contudo, me incomodou por algumas horas e resolvi ligar para ele no intuito de mostrar um ponto de vista mais animador sobre a questão:
“Você sabia que besouros e galinhas têm muito a ver com a natureza humana?”.
“Besouros e galinhas?” Retrucou com voz de espanto já começando a achar que tinha recebido um trote.
Parece alguma fábula de Esopo. Contudo, se pararmos um pouco para observarmos atentamente o comportamento desses dois seres vivos, talvez eles nos ensinem algo útil.
A galinha. Desde o momento em que o homem a domesticou, lá no clarear da humanidade, aprendeu que a segurança da terra firme e do galinheiro era bem mais vantajosa e confortável do que a busca incessante por alimento em um mundo desconhecido e, diga-se de passagem, que naquela época era também extremamente perigoso. Perdeu a necessidade de voar e se conformou com uma vida em torno de um galinheiro e de um único fim, virar janta.
Tem asas, contudo não voa mais do que alguns metros em breves rasantes. Sua vida é uma antítese a toda liberdade que o sonho de voar alimentou durante milênios.
Você já deve estar penalizado com um ser tão submisso à mediocridade da vida que lhe é imposta. Porém, não preciso dizer que a galinha faz coro com vários homens e mulheres que eu e você conhecemos. Todos aqueles que ficam presos nas grades do condicional - Se eu tivesse um carro, se eu fosse mais magra, se eu tivesse asas - e tal como a galinha, não percebem que têm todos os elementos para voar, todavia, acostumados de tal maneira com o galinheiro, pensam que o mundo termina no limite de suas grades, e pior, que não conseguirão, antes mesmo de tentarem.
O besouro. Todos já ouvimos histórias de empreendedores que, contra todas as probabilidades, vieram, viram e venceram. Talvez o maior empreendedor do reino animal seja o besouro. Por quê? Imagine um especialista em aerodinâmica tentando se comunicar com um besouro: “Você, besouro, apesar de ter asas não pode voar. Sua carapaça e seu peso o impedem de realizar tal façanha. Se lhe serve de consolo, eu nem asas tenho.”
Para a sorte do besouro, e para o nosso espanto, ele não entende muito bem o que tentamos lhe dizer e não sabendo de suas limitações e impossibilidades...voa!. Trôpego e cambaleante, mas voa!
Todos nós somos dotados de um conjunto único de competências que nos faz diferentes de todos os nossos semelhantes e, por isso mesmo, muito especiais. Temos asas e podemos voar, mas na maioria das vezes não nos damos conta disso.
Se, só por uma única vez, conseguirmos escapar das armadilhas das imposições e aparentes impossibilidades que nos são impostas desde crianças, poderemos vislumbrar um admirável mundo novo e inexplorado. O mundo em que as nossas capacidades são o capital e a nossa força de vontade, o veículo. Um mundo em que não dependemos de fatores externos, só daqueles que já nasceram conosco. E podem ter certeza de que eles são mais do que suficientes para chegarmos aonde quisermos.
Homens que agem como galinhas, conheço muitos. Homens que se identificam com besouros, pouquíssimos, e estão muito bem de vida. Diante da dificuldade, não esmorecem e continuam em frente. Empreendem, propõem novas soluções, lutam, e na maioria das vezes, aos trancos e barrancos, chegam aonde querem.
A criatividade e o processo de inovação, novas vedetes nas empresas, seguem o caminho do besouro. Seguir em frente com soluções criativas para resolver uma questão que parece sem solução. A galinha, com sua segurança aparente, nada tem a acrescentar nesse processo.
Besouros e galinhas são dois caminhos distintos e estanques. Tentar seguir o exemplo do besouro ao invés do da galinha pode ser uma boa política em várias épocas de nossas vidas, porém, sempre haverá os que preferirão a segurança de um confortável galinheiro.
Se consegui mostrar um novo ponto de vista ao meu amigo? Me responda você.
Conrado Adolpho (www.conrado.com.br) é empresário, publicitário, escritor e palestrante. Sua formação vem de faculdades de excelência como ITA e Unicamp. Trabalha com tecnologia, Internet e marketing. É especialista em marketing on-line, presta consultoria e ministra palestras em marketing na Internet, e-business, estratégias de marketing on-line, otimização de sites para mecanismos de busca e outros assuntos ligados à Internet e marketing. Atualmente é diretor de criação da Publiweb – Marketing e Consultoria Digital (www.publiweb.com.br)
Autor: Conrado Adolpho
