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Réquiem de Natal
04/11/2005
Neste triste início de ano, não venho falar-lhes de marketing ou de vendas, nem dar dicas de atendimento ou de marketing pessoal. Venho lhes propor uma reflexão sobre a catástrofe gerada pela seqüência de ondas gigantes que atingiu o sul da Ásia e o leste da África no dia 26 de dezembro de 2004, uma reflexão sobre o impacto das tsunami no mundo.
Além de chocar o planeta inteiro com uma morte em massa, seus efeitos ainda matam. Isso, dias após os caprichos da natureza ceifarem mais de 200 mil vidas. A fome, agora ainda maior em paises que, sem nenhuma tragédia natural, já eram paupérrimos; a peste, trazida pela contaminação da água; a guerra, pela sobrevivência e pelo pouco de cuidados disponíveis e a morte, no atacado, parecem rememorar previsões bíblicas. Cavaleiros apocalípticos em países que, para muitos, a única saída talvez seja rezar e lutar pela própria vida.
Por mais que todo o mundo tente fazer algo a respeito, não é o suficiente, nunca será o suficiente. Parece que temos muito talento para a destruição, mas não somos muito bons em salvar vidas.
Confesso que, no meu tranqüilo e brasileiro fim de ano, senti a raça humana como uma criança que é repreendida pela mãe (natureza) ao bater no irmãozinho. “Você acha que é mau? Você acha que sabe bater no seu irmãozinho? Agora eu vou lhe bater para lhe mostrar o que é bater de verdade.”
Não poderíamos ter feito de forma mais cruel e inesperada. Até as guerras são seguidas de seus presságios e avisos.
No dia onze de setembro de 2001, três mil americanos morreram no que ficou conhecido como atentado terrorista do 11 de setembro.
Somando-se todos os mortos em desastres da natureza acontecidos nos anos de 2002 e 2003, o número não chega a 100 mil pessoas.
Duzentas mil mortes não fariam sentido nem para algum filme megalomaníaco de James Cameron.
O filme O Dia Depois de Amanhã parece que tomou vida nas cenas de vídeos amadores filmadas por turistas assustados e pessoas em pânico.
Acostumados a ver filmes em que Stallones e Schwarzeneggers matam sorrindo como uma tsunami de carne, osso e armas pesadas, nossa TV shopping-center, em que a notícia de um assassinato vem entre os próximos capítulos da novela das oito e uma propaganda das Casas Bahia, banaliza a vida humana e a violência urbana nos fazendo imunes a grandes tragédias. A última grande tragédia que vi foi na sessão da tarde de segunda-feira.
Lembro-me do genial Guerra nas Estrelas. Quando a “Estrela da Morte” extermina todo um planeta, Obi-Wan, sente uma “queda na força”, algo como sentir o sofrimento de milhões de almas em desespero. Para a grande maioria de nós, ver a morte chegando pelas ondas da TV não nos sensibiliza como a Obi-Wan Kenobi. Já estamos acostumados a vivenciar violência muito mais cruel do que ondas gigantes avançando sobre a população ou mísseis Tomahawk, que mais pareciam estrelas cadentes, cruzando as telas do Jornal da Globo em nossas confortáveis salas. A violência asséptica que não nos causa repulsa ou angústia.
Imaginar uma pessoa que tenha perdido mais de trinta parentes na tsunami não é tão difícil. Em nossa violência urbana isso já acontece. Estamos vacinados também contra esse tipo de acontecimento.
Estamos imunizados contra sentimentos de profunda tristeza (o que seria normal) de tal forma frente a grandes flagelos que, para muitos, a doação de alimentos para os sobreviventes asiáticos virou nada mais do que um evento social. O que faz uma família brasileira de classe média doar centenas de reais em alimentos e vestuário para habitantes de países como Sri Lanka ou Indonésia e, voltando do posto de doações, passar incólume pela criança faminta que jaz na calçada de seu prédio, com, provavelmente, mais fome e há mais tempo do que um sobrevivente de uma tsunami?
Como disse, não somos muito bons em salvar vidas.
Conrado Adolpho (www.conrado.com.br) é empresário, publicitário, escritor e palestrante. Sua formação vem de faculdades de excelência como ITA e Unicamp. Trabalha com tecnologia, Internet e marketing. É especialista em marketing on-line, presta consultoria e ministra palestras em marketing na Internet, e-business, estratégias de marketing on-line, otimização de sites para mecanismos de busca e outros assuntos ligados à Internet e marketing. Atualmente é diretor de criação da Publiweb – Marketing e Consultoria Digital (www.publiweb.com.br)
Autor: Conrado Adolpho
