Como acabar com a pirataria?
Pergunta estranha e muito bombástica? Confesso que sigo o modelo AIDA, em que a minha preocupação inicial é chamar a atenção para um determinado conteúdo. Porém, acompanhe a minha linha de raciocínio e veja se não há um bom fundo de razão nas minhas considerações posteriores.
Lendo minha dose cavalar de notícias diárias desse louco mundo digital, me deparei com o seguinte parágrafo:
“De 14 de abril a 15 de maio, quem comprar o álbum do Gloria na rede de lojas Fnac ganhará o direito de assistir ao show de lançamento do disco no Hangar 110, em São Paulo. É só guardar a nota fiscal do CD para ter direito a assistir o show no dia 4 de junho”.
Algo que há anos já faz parte do mundo business parece estar aos poucos se revelando no mundo do “show business” – o produto aliado ao serviço.
Hà muito se diz que, dada a popularização da tecnologia, as empresas só ganharão competitividade na prestação de serviços. Quanto mais os concorrentes “talibãs” tiverem tecnologia barata e acessível, e isso parece ser um caminho sem volta, cada vez mais quem fará a diferença no equilíbrio do mercado serão as pessoas.
A Banda Gloria e sua gravadora estão apostando nisso aliando o produto – o CD físico – ao serviço: o show de lançamento do disco. Porém, estamos um mundo dito off-line (se é que existe essa distinção). E no mundo online, em que músicas são copiadas com a mesma facilidade do que uma criança de 1 ano diz “gugu” (ou “google” para os pais mais interneteiros)?
Ainda vale a lei de aliar produtos a serviços? Minha resposta a essa indagação é um categórico “sim”.
Estratégias são muitas para tal, porém, é preciso que gravadoras, e outras empresas ligadas a venda de conteúdo, mudem suas cabeças analógicas para as cabecinhas digitais da nova geração.
Só a título de algumas idéias soltas: as gravadoras poderiam lançar portais em que os fãs de determinado músico ou banda iriam interagir com seus ídolos de forma exclusiva, mediante login e senha obtido na compra de um mp3 no site da própria gravadora. A interação poderia se dar por meio de chat, fotos exclusivas, wall-papers, produtos licenciados exclusivos, etc.
As gravadoras também podiam se tornar promotoras de shows e turnês. Com isso, abriria-se um novo modelo em que poderiam distribuir livremente músicas pela Internet para “esquentar” o público-alvo e acostumá-los com as novas músicas, ao invés de depender das rádios para isso.
No caso das bandas, poderiam fazer como Radiohead e arriscar medir a sua popularidade junto aos fãs distribuindo suas músicas para que o público fá pagasse quanto quisessem. Vivemos na era da transparência. É preciso entender o que isso siginifica, de fato.
As bandas também poderiam dar shows pela própria internet via streamming. Shows exclusivos para quem tivesse um código de compra do mp3 (lógico, que não poderia haver dois códigos assisitindo ao show ao mesmo tempo). Digo “compra do mp3″ porque o modelo de venda de CDs já caducou há muito tempo e só algumas gravadoras, perdidas no novo mundo, ainda não perceberam.
Na mesma linha de raciocínio, temos as editoras, também bem preocupadas com a pirataria de seus livros. Aliar produtos e serviços parece ser a solução para este caso também.
As editoras deveriam fazer como a O´Reilly, que cada vez mais alia livros (produto) a eventos (serviços) e cria uma comunidade em torno da sua marca (pessoas), trabalhando canais online como YouTube, Twitter, Facebook e outros.
As editoras precisam se libertar do modelo de negócios antigo em que a receita era gerada por meio da venda de livros – o produto – para aliar esse produto à uma verdadeira gama de serviços interativos com seu público. O serviço deve ser como uma complementação natural do livro.
Quando falo “interativos” não digo só sobre serviços via internet. Interação é uma comunicação bilateral e em tempo real, isso pode acontecer na forma online ou na offline.
A idéia polêmica que quero difundir é “Deixe que pirateiem”, mas faça do serviço exclusivo a quem comprou o livro uma extenção natural do produto. Prepare-se para tal antes de começar a escrever ou vender o livro.
Com a internet, criou-se um novo cenário e novas regras. O jogo mudou, logo, o comportamento e o modelo também tem que mudar. É preciso reaprender a ler e a escrever e não tiro a razão dos que acham que isso é dolorido demais. Muitos preferem esperar o mundo acabar do que terem aquele sofrimento do aprendizado pelo qual passaram na infância. Aprender dói. reaprender, mais ainda.
Imagine um livro que tenha em seus ensinamentos uma complementação natural em web-palestras ou “softwares as service” para quem comprou o livro.
Um livro que ofereça desconto (um desconto maior do que o preço pago pelo livro, lógico) em um workshop ou palestra com o autor.
Um livro que forneça acesso gratuito a uma enorme biblioteca, constantemente atualizada, sobre os conceitos que o livro traz. Afinal as pessoas compram livros para aprender algo, para mudar a sua visão a respeito de algo ou para se divertir.
Dado que o leitor brasileiro, na sua maioria compra livros para aprender sobre algo e ascender profissionalmente, segundo pesquisa “Raio X do leitor brasileiro“, a complementação do conhecimento na web parece ser uma ótima ferramenta para minimizar o problema da cópia gratuita pirateada.
São só algumas maneiras de fazer com que o produto tenha uma complementação natural no serviço. Para o caso do livro (se for técnico, melhor ainda) é mais fácil do que o caso do mp3, porque envolve um conteúdo não muito palatável para a maioria dos leitores.
O livro, que é o objeto tangível de compra devido a seus custos de produção, passa a ser o veículo de publicidade dos serviços. O livro é vendido, os serviços, oferecidos gratuitamente para os compradores, porém, só para quem comprou o livro.
Em resumo – o objetivo final é fazer com que as pessoas usufruam dos serviços, o livro é um veículo. É de onde vem a renda, mas não é o que é vendido. Complexo? Pense no caso do Google, ele obtém sua receita por meio de cliques em links patrocinados, mas o que ele “vende gratuitamente” são os resultados na busca natural (lado esquerdo da busca).
A mesma estratégia pode ser utilizada com relação a livros eletrônicos. No caso do e-book, o livro pode ser vendido na web (bem mais barato que os livros físicos), porém, dará acesso aos serviços via web.
Em resumo, é preciso cada dia mais aliar serviços – impossíveis de serem pirateados porque envolve sua utilização a pessoas e experiência de compra em tempo real – aos produtos, facilmente pirateáveis e sem personalização.
Nesse modelo de negócios, ao estimular a pirataria, o seu produto poderá chegar às mãos de muito mais gente do que no modelo antigo, comprará quem for de fato o seu mercado-alvo, genuinamente interessado no conteúdo e seus desdobramentos. Quem não for de seu mercado-alvo e só se preocupar em disseminar o conteúdo pela internet atuará, na realidade, como um veículo de divulgação gratuita e poderosa.
Ainda é um modelo novo de receitas a ser exaustivamente testado, porém, existem boas perspectivas que o mundo caminhe em sua direção no que tange à venda de conteúdo. Novas regras exigem novos modelos.

1 Comment
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By Raphael Daolio, 26/04/2009 @ 10:29 pm
Olá,
Acho super interessante o tema tratado e estou convencido do poder das ferramentas da web 2.0 para compor a oferta dos tais serviços adicionais atrelados aos produtos físicos, que hoje nada mais são que commodities.
Agora, pensando no mundo B2B: Como fazer para que empresas multinacionais criem esse tipo de conscientização? Empresas em que a área de Vendas e Marketing não estão intrinsecamente ligadas; empresas em que os modelos comerciais não possuem esse tipo de flexibilização. Existe algum case de sucesso?
Obrigado
Raphael Daolio