De volta à empresa circular

Viver no caos não é mais uma opção: é uma imposição. Viver em um ambiente que muda constantemente é a realidade. A regra é que nenhuma regra é válida por muito tempo.

Tenho defendido o modelo circular de processos nas empresas e volto a debater esse tema nesse artigo por se tratar de uma discussão da maior importância. A empresa circular demanda um outro tipo de dinâmica – a constante revisão de processos, produtos e pensamentos. Muitos diretores de marketing e publicitários em geral podem dizer que não há tempo para isso dada a já assombrosa demanda diária para atingir metas impraticáveis. O mundo, realmente, está cada vez mais difícil de se compreender e de caminhar de forma segura.

Implementar um processo circular em uma empresa implica muitas horas de discussão e muitas semanas ou meses de adaptações e recriações. E o pior de tudo, viver em uma incerta realidade. Sinto muito, mas é como sua empresa deverá ser nas próximas décadas e, pensando bem, a vida de todos nós já é assim, mas tendemos a negar tal fato.

O marketing veio se modificando ao longo dos últimos anos, moldando-se ao mercado porque é dele que extrai suas leis. As mudanças do comportamento do consumidor exigiram que as empresas mudassem (ou quebrassem). Tal ciclo de mudanças não acabou, e nem vai acabar, pois o ser humano evolui a cada instante.

O consumidor, visto muitas vezes como um target – uma massa disforme de indivíduos sem rosto e sem nome – agora tem perfil no Orkut e blog. Cada um quer ser tratado como indivíduo e não como estatística. Diante da valorização cada vez maior do sujeito em si, em detrimento da valorização de grupos de predicados semelhantes, a empresa precisa ter não só a capacidade de mudar, mas de aprender de forma autônoma sobre qual direção tomar diariamente. Deve ser flexível e ágil o suficiente para modificar seu rumo com base em observações das tendências mais sutis, estabelecendo um estado de alerta ininterrupto.

A empresa deve ser uma leitora de almas, deve prover a si a liberdade de mudar de opinião, ideia ou produto quando perceber que algum elemento de seu mix de ideias, (seja em átomos ou bits) não for mais relevante ao seu cliente. A empresa não pode ter medo de errar, pois o erro faz parte do aprendizado. Não existe sucesso sem fracasso.

As empresas – e as pessoas – correm dia a dia atrás de um objetivo determinado e, quando finalmente o alcançam, acham que a viagem terminou. Esse é o raciocínio linear-ocidental-católico-corporativo que prega que existe sempre um fim para a jornada, o mesmo raciocínio que fixa seus olhos no fim da estrada reta e que não consegue evitar a aflição diante da curva que nunca termina. O corporativismo que prega as férias de fim de ano como a redenção final, o encerramento do ciclo – a nova chance de começar de novo, agora do jeito certo. Existe um texto atribuído ao Mario Quintana que traduz muito bem isso:

“O cara que inventou o ano com 365 dias é um gênio, é exatamente o suficiente pra gente achar que já está cansando, quando de repente, vem um novo ano e ganhamos força, novos planos, novos sonhos e aguentamos mais um ano de trabalho (quando na verdade vai ser tudo a mesma coisa)”

Um pensamento que nos conforta uma vez que, se temos a consciência de onde é o início e de onde é o fim, temos também a sensação de que dominamos o processo por completo e só nos basta segui-lo. A finitude linear nos é mais aprazível do que ao infinito incômodo do círculo.
Em um processo circular, o fim e o início se confundem e se transmutam em todos os pontos do próprio caminho. Assim, as empresas devem procurar uma organização de processos e gestão como numa távola redonda arturiana, em que todos os pontos, ou homens, tem igual importância. O mesmo pensamento filosófico oriental que originou o princípio da dualidade complementar constantemente em mutação do yin-yang, expressa no tão conhecido diagrama do Taiji, chinês.

A empresa circular aprende com o mercado e corrige sua estratégia de maneira contínua. Enxerga o mercado como um todo, uma unidade em que, não só, há uma revisão constante do valor que se está entregando para seus clientes, mas também olha e analisa todos os aspectos desse cliente – pessoal, profissional, social e familiar – como já pregava o japonês Kaizen na década de 50.

Assim como a internet deixa à mostra a marca da empresa tanto no aspecto institucional quanto promocional, mixando ambos em uma só imagem, o indivíduo do século XXI também tem todos os seus campos mesclados e apresentados na web, desde o seu perfil profissional no LinkedIn, até suas queixas pessoais em um fórum sobre doenças de pele. É sobre esse indivíduo completo (e complexo) que se deve ter consciência.

A empresa circular deve aprender a aprender. É uma “empresa aprendiz”, orgânica, humilde diante do que não sabe e eficiente no que sabe, com a consciência de que um de seus maiores ativos é a capacidade de resposta frente à mudança. Segue o mercado transformando-o e sendo transformada por ele.

A empresa circular sabe que a jornada é tão respeitável quanto o destino. Negando a filosofia maquiavélica, os fins não justificam os meios porque, tão ou mais importante que o destino, é a maneira como ele é alcançado. O raciocínio linear mira somente o destino enquanto o raciocínio circular analisa cada passo dado que encerra em si mesmo o fim e o início do caminho. Da mesma maneira como cada célula de nosso corpo é parte e todo ao mesmo tempo, já que traz em em si nossa própria sequência vital de DNA.

A internet é em si mesma um processo circular. Não tem início, não tem fim. A navegação é protagonizada por cada indivíduo e é única dado o infinito número de possibilidades geradas pelo intertexto, pelas conexões e links, pela interação. Não há fórmulas prontas nem caminhos já traçados. Diante desse cenário, parece insano seguir velhas regras.

É preciso aprender fazendo. É preciso fazer aprendendo. Ir e voltar, destruir e reconstruir, mudar, trocar, perguntar, experimentar. O que se apresenta diante de nossos narizes e teclados é um mundo inseguro e cheio de incertezas que exige um novo olhar sobre si. Ampliar o campo de visão para os 360º circulares e repensar os modelos tradicionais lineares e orientados para o fim ? e não para o meio ? é imperativo e necessário para sobreviver à guerra do mercado que hoje acontece de forma declarada.

Pense de forma circular para que seu negócio sobreviva às novas exigências desse consumidor 2.0 que não tolera mais uma empresa que não o entenda.

Fonte: iMasters

  • Fabiana Silvestre

    Texto mto bom! Como aprendiz q sou, estou na constante busca pela “atitude circular”.Gd abraço!