Entre sushis, sashimis e Paidéias digitais
Reza a lenda que o sushi, tradicional prato oriental que virou moda aqui em nossas terras tropicais, tem origem no século IV a.C. Segundo a Wikipédia, o arroz cozido era usado para conservar o peixe salgado através da fermentação do arroz.
Afinal, o que a história de um prato que tem suas origens em épocas tão remotas quanto o próprio homem contemporâneo tem em comum com um blog que fala sobre mundo e sociedade digital?
No dia de hoje, muito,
Foi entre sushis e sashimis que foi regada a conversa que tive hoje com Cesar Taurion em um pequeno restaurante japonês. Uma pessoa que merece as honras que recebe.
Um assunto recorrente, entre um temaki e outro, foi o modelo arcaico de educação que vivemos hoje e o descompasso entre professores e alunos no que tange ao processo de aprendizado. Talvez por ter dado aulas cerca de dez anos tal assunto me cause tantas indagações.
A situação não poderia ser mais grave. Professores, para garantir um salário apenas suficiente para uma vida digna, se vêem na obrigação e ministrar 40, até 60 aulas semanais em uma rotina que deixaria exausto até um ironman. Tal rotina, porém, não para por aí. Não esqueçamos das provas para corrigir, dos trabalhos para avaliar, do diário de classe para preencher e das infindáveis (e, diga-se de passagem, bem improdutivas) reuniões pedagógicas.
O tempo escasso e o trabalho intenso se tornam os algozes da qualidade do ensino. Não há tempo para se atualizar e, em muitas faculdade, a aula de dez anos atrás ainda é ministrada como se fosse algo realmente novo.
Em contraposição a esse quadro, por si só desalentador, há os alunos. Jovens, cheios de energia, tempo e vontade para explorar e descobrir o mundo. A seu favor – a tecnologia.
A dissonância entre o que o professor – “detentor do saber” – e os alunos é bem maior do que a distância física que os separa na sala de aula. Professor e alunos caminham em direções opostas.
Alunos pesquisam na internet o que realmente lhes interessa, criam músicas e textos de forma colaborativa, estruturam seu pensamento em diretórios e vivem a uma velocidade inspirada por filmes de 007. De site em site, de vídeo em video, colecionam amigos, compartilham conteúdo e dominam as novas tecnologias como se elas fizessem parte de seus próprios cérebros. A tal da “geração Y”.
Esse quadro não poderia estar mais distante do pintado pela vida cotidiana de um professor, seja ele de ensino fundamental, médio ou superior.
O modelo educacional precisa evoluir juntamente com o aluno, não com o professor. É o aluno o motivo de tal modelo existir. A polarização que se vê há centenas de anos na sala de aula que põe professores e alunos em lados opostos só tende a aumentar a distância entre os dois e a acirrar a disputa entre o “eu estou certo” e o “você está errado”, independente de quem fale uma ou outra frase.
Mais ou menos na mesma época que o sushi era inventado, surgia na Grécia um modelo de ensino que privilegiava a verdadeira e natural formação do indivíduo – a Paidéia. Um mestre, 12 alunos e a discussão da problemática cotidiana tendo por objetivo a formação completa do indivíduo – eu disse “indivíduo”, não “máquina decoradora de fórmulas”.
Sem saudosismos de uma época que não vivemos, a diferença com relação à Grécia antiga é clara – a tecnologia, para ficar em apenas uma, relevante para nossa discussão.
A construção do conhecimento, assim como o ideal da escola construtivista, deve se dar através de estímulos externos que forçam o indivíduo a construir e organizar este conhecimento utilizando para isso o próprio meio em que vive. O meio, atualmente, é boa parte do tempo, digital e colaborativo. Como aliar isso, ao se propor um modelo de ensino em meio às novas tecnologias, usando giz e quadro negro?
Assim como em uma aula na Grécia antiga, em que alunos e mestres sentavam-se na grama e discutiam assuntos diversos, a internet pode promover uma discussão muito mais ampla e não limitada pela geografia como uma grande fogueira digital.
Crianças (ou universitários) não precisam mais se limitar às suas fronteiras ou idades (algo que nunca entendi – formar séries devido à idade de cada um e não à experiência ou maturidade) trocando informações com seus pares em nível global.
É lógico que isso mexe com o status quo e com toda a estrutura que existe há séculos por trás da indústria do ensino. Não é tão fácil, porém, quem está pedindo por mudanças são os alunos. Repito: eles são o motivo de todo o sistema educacional existir.
Gostaria que alguns ministros e professores estivessem compartilhando de nosso sushi…

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