O futuro do e-commerce

Respondi algumas perguntas em uma entrevista sobre e-commerce para a Revista Crescimento Empresarial e gostaria de compartilhar a resposta de uma das perguntas com vocês. Comprem a revista para verem as outras respostas, ok? 🙂
Revista Crescimento Empresarial: O que podemos esperar do comércio eletrônico para os próximos anos?

Conrado Adolpho: Para entendermos a trajetória do comércio eletrônico ao longo dos anos, podemos estudar a própria história do varejo. Inicialmente tivemos os pequenos bazares vendendo itens de necessidade básica – comida, principalmente. Posteriormente os bazares cresceram acompanhando o crescimento populacional e do consumo e se transformaram nos grandes magazines vendendo de tudo.

Os magazines reinam durante um tempo Рganham a guerra Рmas come̤am a perder p̼blico para as lojas segmentadas Рcome̤am a perder algumas batalhas. Pequenas lojas especializadas em t̻nis, em perfumes, em eletr̫nicos e outros itens passam a se posicionar melhor do que os magazines (como defenderia Al Ries).

As pequenas lojas especializadas crescem e começam a tirar muito público dos magazines. As ações desses grandes magazines já não valem tanto. A maioria não suporta a competição (Mesbla, Mappin e vários outros) e poucos sobram no mercado concentrando poder devido à geografia. Há espaços para poucos magazines no mundo fragmentado de hoje, principalmente quando temos os shopping centers, espaços agradáveis e de convívio com lojas de todos os tipos. A massificação da segmentação.

Alguns sobrevivem, passando de supermercados a grandes players – poucos, contudo. Um Wal-Mart consegue porque é agressivo com sua política de mercado. Quebra os pequenos supermercados locais (nos EUA) o que causa maior concentração de poder. Força os preços dos fornecedores, vende mais barato que todos e fica cada vez maior na região e posteriormente, globalmente.

Quanto maior a concentração de poder, como diria Karl Marx, maior o número de fusões e aquisições diminuindo os players no mercado. No final, só restarão a Eurásia, a Oceania e a Lestásia, porém, na versão “mercado”. Pode-se traduzir para Casas Bahia/Ponto Frio/ Pão de Açúcar/Barateiro/Extra, Carrefour, Wal-Mart/Big e  assim sucessivamente.

As pequenas lojas passam a se concentrar nos diferenciais, a experiência de compra, o atendimento, o produto premium, o ambiente etc. O varejo de hoje se torna cada vez em lojas baseadas na experiência com a marca. Muitas partem para terem um espaço de convívio como a Livraria Cultura, a Livraria Saraiva, o MacDonalds (que está se reposicionando, a começar por suas lojas na Europa), Postos de Gasolina com suas lojas de conveniência e muitas outras. Deixam de privilegiar o produto para privilegiar o convívio, o social, as pessoas.

Se compararmos com a história do comércio eletrônico, veremos uma trajetória muito parecida. Inicialmente temos pequenas lojas que começam vendendo um item ou outro (Booknet) e que passam a vender de tudo (Submarino) crescendo junto com a população (no caso, o próprio crescimento do público e-consumidor). Essas lojas ficam enormes e começam as fusões (B2W), aparecem as pequenas especializadas (Sack’s, NetShoes), elas crescem e começam a tirar público das grandes lojas iniciando uma estabilização e amadurecimento do mercado. O exemplo americano é bem sintomático nesse sentido. A Amazon, maior e-commerce do mundo, não tem mais de 10% do market-share americano.

Há, porém, algumas diferença com relação ao varejo tradicional, uma delas é preponderante para a mudança do cenário do varejo tradicional para o varejo online: o fator geográfico.

As lojas do varejo tradicional dependiam da população da sua localidade para crescer. Nesse cenário, a localização da loja era fundamental. Na internet não existe o fator geográfico. Isso acelera o processo de crescimento de maneira significativa. Uma loja especializada, na internet, consegue vender para qualquer pessoa do mundo que queira comprar dela.

Antes, ela tinha que vender para o nicho de sua localidade, o que limitava muito seu crescimento. Imagine montar uma loja de material de patinação no gelo em São Paulo. É um nicho que não é tão grande em São Paulo, mas muito grande no mundo. Na internet, devido à queda da barreira geográfica, a loja de nicho vende para todas as pessoas que querem comprar tal produto, independente de onde ela esteja. Na internet, qualquer nicho vira mercado de massa, principalmente em um mundo com praticamente 7 bilhões de pessoas.

Isso muda tudo. Acelera o crescimento fazendo com ela se torne uma loja especializada enorme muito mais rapidamente. Compare o quanto uma loja como a Boticário demorou para crescer como marca especializada em cosméticos e quanto a Sack’s demorou para crescer especializada em perfumes e o quanto cada uma cresceu. Existem muitos  exemplos. Essa diferença de velocidades é devida principalmente à queda da barreira geográfica e à população crescente e ligada cada vez em tecnologia, além do aumento do poder de consumo do mundo por causa do crescimento do próprio capitalismo baseado em produção e consumo.

O comércio eletrônico ficará cada vez segmentado, da mesma maneira que o varejo tradicional. Se tornarão mais sociais (s-commerce) e se aproveitará cada vez do fator geográfico por meio do desejo e possibilidade de mobilidade (m-commerce) por parte do consumidor. A web semântica invadirá cada vez o e-commerce, mas não vamos iscutir ela por agora, pois é algo para uma outra pergunta só para tal assunto (aconselho que entenda o que é pelo livro “Pull” e em pesquisas na rede). Os produtos virão até nós na hora que precisarmos dele sem precisarmos procurá-los como fazemos hoje. Nossos celulares serão nosso supermercado e nosso cartão de crédito. Isso aumentará o nível de consumo de maneira que nem podemos imaginar.

Além de todos esses fatores, há alguns outros que potencializam esse cenário do e-commerce – o fator demográfico. Seremos 9 bilhões de pessoas em 2050 e 8 bilhões em 2025. Estamos crescendo em 1 bilhão de habitantes no planeta a ciclos de mais ou menos 12 anos. As pessoas tenderão cada vez mais a usar a tecnologia para tornar suas vidas mais produtivas e agradáveis em um mundo lotado (ou como diria Thomas Friedman, “quente, plano e lotado”). O poder de consumo só tenderá a aumentar, principalmente nos países emergentes. No Brasil teremos o bônus da demografia devido ao número médio relativamente baixo por de dependentes por adulto que hoje temos e a quantidade de pessoas na idade adulta e produtiva (vale a pena entender melhor sobre esse tema). Quanto mais pessoas produzindo riqueza, mais renda produzida, mais produtos sendo consumidos.

O e-commerce vai parar de ser chamado de e-commerce (ou m-commerce, ou s-commerce) como se fossem categorias diferentes de algo que é único para o consumidor – a compra. Não importará o canal, apenas a compra. Será como chamarmos compra em lojas de rua de r-commerce e compras no shoppings centers de sh-commerce. “Commerce” é “commerce” e ponto. É compra. É desejo e necessidade.

As pessoas comprarão produtos pelos tablets, pelos celulares, pela geladeira, pelo abajur. Haverá dispositivos de compra em todos os lugares. A praça – dos 4 Ps – estará em todos os lugares e já sabemos que quanto melhor a “distribuição”, mais vendas. A Coca-Cola nos ensinou isso no mercado tradicional. Não é agora que isso vai mudar. Só tende a aumentar.

É lógico que quanto mais longe vamos com nossas suposições, maior é o risco de errarmos. Pararei por aqui com a futurologia. Quem poderia prever o iPad há 3 ou 4 anos? A tecnologia nos surpreende todos os dias. Não dá para prevermos mais tão longe.

Uma coisa é certa, o comércio eletrônico, como ainda é chamado, mudou o mercado completamente e não há volta para isso. Ou as empresas se adaptam ou não sobreviverão a médio prazo.

Conrado

Conrado Adolpho, empresário há 22 anos, é especialista em alavancagem rápida de micro e pequenas empresas. Formado em Marketing com especialização em Economia, autor, consultor, palestrante, estudioso de filosofia e ativista social. Idealizador do Método 8Ps - método de Marketing Digital e Vendas, que é utilizado hoje por diversas agências, faculdades e empresas por todo o Brasil, e instituições de alguns outros países. Tem como missão pessoal "Transformar o mundo através do empreendedorismo" e já ajudou mais de 8 mil pessoas através do treinamento Imersão 8Ps e impactou mais de 33 mil empresas através do Método 8Ps. Autor do best-seller brasileiro de marketing mais vendido do país e vendido também em Portugal: Os 8Ps do Marketing Digital.

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2 comentários

  1. Theo tavares em 15/05/11 às 23:45

    A sobrevivencia dos pequenos negocios esta na experiencia positiva de compra do clinte,nesse aspecto me parece que voltamos ao tempo da mercearia da esquina que me conhece pelo meu nome

  2. […] Este texto foi publicado originalmente no blog do Conrado. […]

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