O jogo agora é outro

Tive uma infância bem pobre. Minha mãe chegou a cozinhar e costurar para fora para me manter em um bom colégio. Cuidava de mim sozinha, já que era separada do meu pai desde que eu era bem pequeno.

Não tinha luxo (mas nunca faltou comida e educação). A vida era uma luta constante. Vivíamos na era da escassez.

Como a vida era muito dura com a gente, ela sempre foi muito refrataria. Brigava com quem atravessasse na frente dela. Ela tinha que se sustentar e alimentar uma criança pequena.

Eu não tinha noção do quanto ela foi corajosa naquela época. Hoje eu tenho essa percepção de maneira clara. Mulher, separada, negra, com um filho pequeno no Rio de Janeiro e lutando para me transmitir valores morais em um ambiente inóspito.

Cresci assim, logo, em uma dada época, também fui assim. Refratário. Defendendo o pouco que tínhamos com unhas e dentes.

O tempo passou, a vida melhorou e em um determinado momento já não havia tão pouco a ponto de termos que defender com unhas e dentes para garantir o prato do almoço.

Tínhamos deixado de ser pobres.

As vezes demoramos para perceber isso. Décadas. Isso causa uma visão destorcida da vida. A situação havia mudado, mas os padrões mentais antigos ainda estavam presentes.

Já li que aprendemos a maioria dos nossos padrões mentais na infância. Nesse caso, eu passei a repetir o padrão mental da minha mãe. O contexto em que ela vivia exigia isso dela e foi o que nos salvou.

A minha vida, a partir de um certo momento, porém, não exigia de mim mais as tais habilidades de defesa, mas me exigia outras habilidades. O contexto mudou. Eu não precisava me defender, mas precisava aprender regras novas.

Hoje em dia o contexto exige de mim habilidades sociais, percepção de estratégia de negócios, capacidades tecnológicas e outros conhecimentos que há 30 anos seriam inúteis.

Em um determinado momento da minha vida percebi que eu estava jogando um jogo que aprendi na infância. Mas o jogo tinha mudado. Agora era basquete e eu continuei chutando a bola como se fosse futebol.

Estou falando de mim, mas estou falando também de você.

As habilidades que você precisa para vencer no jogo atual nem sempre são as que seus pais precisaram para vencer no jogo deles. O jogo mudou e agora as regras são outras.

Em algum momento da minha vida sentia como se tivessem me colocado em um jogo de beisebol. E eu não entendo absolutamente nada de beisebol. As pessoas me criticavam e eu não sabia porque. Falavam que eu estava fazendo tudo errado e eu não sabia porque.

Hoje sei, estava seguindo as regras do jogo antigo.

Para vencer no novo jogo, primeiro é preciso perceber que se está em um jogo diferente. Depois é preciso aprender as regras. Depois jogar e, só depois de praticar muito, ganhar.

Tome cuidado para não seguir cegamente as regras aconselhadas por quem sempre esteve em um jogo diferente do seu.

Talvez você precise descobrir quais as novas regras sozinho. Limpe seu padrão mental antigo, jogue fora as crenças que lhe limitavam em um contexto diferente, reescreva sua história nesse novo contexto.

Lembre-se do seu passado mas não o tome sempre como a sua referência, mas sim como aprendizado.

  • http://fb.com/dyegoalberton Dyego Alberton

    E hoje eu tenho certeza que a sua guerreira – mãe – está muito orgulhosa do grande transformador de vidas que o filho dela tornou-se Show, Conrado! Parabéns pelo grande Ser que és! Continue a sua missão firme forte!

  • Irrosemberg Vasconcelos

    Muito boa sua história , fico feliz pela experiência de vida e de conquistas ou melhor superação !!! Estou aqui na batalha estudando Pesquisando e planejando estratégia , que aprendi na 8 Ps, sem tempo para quase nada mais no momento, só que todas as vezes que recebo seus conteúdos tenho que parar para lèr ou ouvi seus conselhos porque sei que tem algo bom para nos passar e orientar. Continue assim, neste seu trajeto, é muito bom termos alguém que nos confiar e nos ajuda em todo o tempo!

  • Felipe Fontoura

    O mais difícil é desaprender para aprender. Esse é o jogo!

  • Otelício Bispo Dos Santos Da C

    Muito top!! Obrigado por compartilhar sua história e assim nos ajudar a refletir sobre nosso contexto!

  • Vassilios Stephanou

    Parabéns pela forma construtiva a que o ser humano deva tirar das vicissitudes da vida, sem que interfira no seu conceito de crescimento pessoal e profissional. Mas envolvido na sua história, ficou uma pergunta para fazê-lo: “Agora, que você está praticamente realizado na vida, um vencedor, como se encontra sua amada mãe nos dias de hoje, nestes tempos bem melhores? Torço para que ela esteja viva e, goze dos frutos de ver seu filho um vencedor!

  • Diogo Mello

    Na minha opinião a melhor parte para se refletir:

    “Tome cuidado para não seguir cegamente as regras aconselhadas por quem sempre esteve em um jogo diferente do seu.

    Talvez você precise descobrir quais as novas regras sozinho. Limpe seu padrão mental antigo, jogue fora as crenças que lhe limitavam em um contexto diferente, reescreva sua história nesse novo contexto.”

    Obrigado pelos ensinamentos Conrado. Abs.

  • Marcelo dos Santos Pereira

    Absolutamente conciso (kkk, tive que olha no dicionário para ver se era assim mesmo que se escrevia) e perfeito. Sorte de quem compreende suas palavras Conrado.

    Parabéns!!!!