Orkut x Facebook: um case de posicionamento de marca ou interesse global?

O que mais ouvi nas últimas semanas foi  ”O Orkut está virando o Facebook”, “Não migrei para o novo layout do Orkut”, “Vou fazer meu orkuticídio” e por aí vai. Por algum motivo, o Orkut, que sempre foi uma febre no Brasil, está começando a perder a sua força por conta das ondas geradas por um invasor: o Facebook. Será um problema do Orkut de falta de posicionamento de marca junto ao Brasil?

Tenho algumas reflexões a respeito disso.

Todo mundo se lembra quando a AOL veio para o Brasil. A maior do mundo vinha ameaçar o reinado do UOL. Sabemos o que aconteceu durante alguns meses. Uma batalha inglória que o UOL saiu mais do que fortalecido.

A grande diferença entre os dois era: o UOL conhece muito bem os hábitos do brasileiro, simplesmente porque tinha grandes e tradicionais grupos de mídia e jornalismo por detrás de toda a sua operação. Conhecia o brasileiro a fundo e há muito tempo.

Não podemos dizer que o Google, com toda a sua máquina de gerar respostas a todo o segundo, conhece de fato os meandros culturais de um país complexo como o Brasil.

Segundo li em uma pesquisa há alguns anos – do e-marketeer -, o brasileiro dá muita importância para o número de amigos. Sendo o Brasil um país culturalmente gregário, é natural que o Orkut tenha crescido de forma exponencial aqui (e também na India).

O Orkut valoriza o grupo, as comunidades, o número de amigos (informação facilmente visível na página de perfil), o número de fãs etc. Lembra-se de quando o Orkut mostrava o número de amigos ao lado do nome da pessoa? Era uma espécie de ranking. Esse era o grande ponto de aderência com o povo brasileiro.

O Orkut sempre foi um medidor de popularidade: os corações, estrelas de fãs e carinhas legais eram uma espécia de medalhas – como os badges utilizados hoje pelo Foursquare.

Lembro de uma comunidade chamada “Meu Orkut não sabe contar”, ou algo do gênero, em que pessoas se revoltavam pelo fato de ter 150 amigos e o Orkut só mostrar 90. Era motivo de indignação. “Lutei tanto para conseguir 150 amigos e o Orkut não reconhece”(!)

O Facebook, apesar de ter se modificado ao longo do tempo, ele, tendo nascido em um país muito mais individualista, valoriza a pessoa, o indivíduo, não o grupo. Não é tão fácil quanto no Orkut encontrar o número de amigos. Fãs, só para as páginas de empresas (que agora é simplesmente página, e não mais “fan pages”). Quem tem fã no Facebook é marca, artista ou empresa, não pessoas comuns. Simples mortais. No Orkut todo mundo é uma estrela – todos têm fãs.

O Facebook valoriza os aplicativos que a pessoa tem, o jogo que a pessoa joga e, é lógico que vem mudando ao longo do tempo mas claramente valoriza a pessoa e suas atualizações, não a quantidade de fãs que ela tem. Não pegou no Brasil (pelo menos não, inicialmente). É apenas uma redes social, não um “popularômetro” tipicamente adaptado ä cultura brasileira.

Porém, há alguns meses, o jogo se inverteu. A marca Facebook é muito forte e, independente de não valorizar amigos ou fãs, a sua simples menção já causa frisson. Natural, assim como a AOL causou ao chegar no país. Assim como a Fiat causou amargando um prejuízo durante anos só para estar presente no país. Assim como o desafiante sempre causa quando chega dizendo que vai fazer e acontecer. Isso é normal.

No caso da AOL, apesar de outras variáveis externas, o UOL só fez fortalecer seu posicionamento para ficar mais integrado ainda com a cultura que o criou.

Com o duelo Facebook x Orkut, o que aconteceu foi o contrário. O Orkut se assustou e quis virar o Facebook. O Orkut quer jogar um jogo que foi o Facebook que inventou. As chance de ganho são pequenas, mesmo para um Google.

Lembre-se de que a Microsoft, que sempre reinou no universo da tecnologia não foi capaz de vencer um estreante Google no campo das buscas e da interatividade. É questão de DNA e interesse.

A questão, porém, é maior do que ganhar o jogo no Brasil. A questão é: “O Brasil, como uma peça única em um jogo global, interessa ao Google, uma empresa global?”

Os fatos estão mostrando que, apesar do Brasil ser uma peça importante pelo tamanho do seu mercado, tempo de navegação, adoção à redes sociais e todas as outras métricas que estamos carecas de saber, isso pode não representar muito em um jogo que envolve todos os outros países do mundo, principalmente, os de maior poder aquisitivo.

Como em um “Monopólio”, (você se lembra do jogo Monopólio?) o Google quer ganhar grupos de nações, não países isolados. “Se é do modelo Facebook que eles (o mundo) gostam mais, daremos Facebook – mude a interface, mude as funcionalidades, coloque os joguinhos famosos no Facebook e vamos partir para a inovação baseada em cópia e na compra”.

“O Brasil não está migrando para o novo Orkut? Não tem problema, estamos preparando uma nova ofensiva que será a grande rede social do Google”

Me parece a Guerra das Colas ou a Batalha dos Browsers se repetindo em outros campos. Os jogadores e as peças mudaram,  mas o espírito da batalha continua o mesmo – o da velha economia.

O problema é que a Guerra hoje se vence com armas diferentes. Armas que têm muito a ver com preferências individuais do que quem tem mais arqueiros ou cavalaria. É a nuvem disforme de consumidores que pendem os pratos dessa enorme balança com uma fluidez muitas vezes não compreendida antes da balança virar. É no micro-target que se vence a guerra.

Será um jogo interessante que, ao contrário do que muitos dizem, não acho que será o consumidor a sair ganhando dessa guerra. O próprio Facebook não é lá essas coisas em termos de funcionalidades, mas é a festa mais cheia. Independente da cerveja estar quente, é lá que todos querem estar.

O que vejo é que a batalha das redes sociais está começando e ainda trará muitas surpresas e desavenças. Vamos esperar para entender melhor como que a velha economia continua influenciando na nova economia.

7 Comentários

  • By Helênico, 18/08/2010 @ 09:24

    Olá Conrado. No trecho que diz “Lembro de uma quantidade chamada “Meu Orkut não sabe contar”,”, onde aparece “quantidade”, você não quis dizer “comunidade” ? Um abraço. Helênico

  • By Conrado, 19/08/2010 @ 23:21

    Putz…verdade.
    Obrigado :)

  • By Mayko Franceschi, 11/03/2011 @ 16:28

    Excelente post Conrado.
    Sempre digo que o Google perdeu a mão ali por volta de 2007, quando poderia ter dado a devida atenção ao Orkut e assassinado o Facebook.
    Mais valeria ter sido totalmente (brasileiro) e dominar nosso país com uns 80 milhões de usuários do que virar o que virou e morrer.
    Abraços.

  • By Adriano Foss, 11/03/2011 @ 16:44

    Concordo com você Conrado, acho também que o maior erro que qualquer empresa pode cometer é querer jogar o jogo do ponto forte do adversário. A Google deveria trabalhar para agregar maior valor aos pontos fortes do Orkut, algo que fizesse o Facebook cair no ridículo se o imitasse, afinal eles são os pioneiros. Mas parece que o “ego” foi atingido, e eles começaram a perder a razão, tomando atitudes que caracterizam desespero.

  • By Edie, 11/03/2011 @ 16:50

    Oq vc diz ai nas frases finais é tipico da maioria dos brasileiros…Facebook não é lá essas coisas em termos de funcionalidades, mas é a festa mais cheia. Independente da cerveja estar quente, é lá que todos querem estar…

  • By Felipe Cardoso Barbosa, 11/03/2011 @ 18:38

    Muito legal o texto. Me parece que o pessoal do Google não está levando em conta o verdadeiro motivo dos brasileiros usarem o FB! Eu vi uma vez um gráfico indicante que a grande maioria estava lá pelo FARMVILLE… isso mesmo. Não pelo layout. Não pela maneira como as atualizações aparecem. Não por ser um lugar “melhor”.

    Sem contar que acredito no “Herd Behavior” nesse caso. O FB se fortaleceu nos EUA e Europa. Ora, convenhamos. Quem não quer se achar “cool” e seguir tendências que vêm dos EUA e Europa? Isso é típico por aqui. Todo mundo diz que o FB é melhor. Quem é “cool” tem FB e joga Mafia Wars. Cuida da sua fazenda virtual…

    Vou postar o link pro post do meu blog onde falo sobre o caso FB e Orkut: http://www.v13marketing.com/2011/01/fenomeno-facebook-e-o-herd-behavior.html

  • By Marcelo-Serra/ES, 19/05/2011 @ 16:57

    A questão também é o super investimento que o facebook faz em sua rede social,aliás o facebook nada mais é do que uma mega rede social enquanto o orkut é apenas mais um produto dentre os vários da google.

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