Confesso que andei um pouco sumido desse blog. O lançamento do livro “Os 8 Ps do Marketing Digital” ( o novo nome que a 4a edição do “Google Marketing” terá), os cursos de certificação de consultores de marketing digital, a criação de uma ONG e todos os outros projetos tiraram o meu tempo e impediu que eu me dedicasse ao blog.
Bom…mas agora eu voltei
E nessa volta quero brindar-lhes com um artigo sobre alguns movimentos sobre uma internet voltada para a sociedade. Algumas palavras que mostram minha opinião a respeito do tema: internet como instrumento de uma retomada da consciência de humanidade solidária. Sobre a reflexão de qual é o nosso papel aqui no planeta Terra.
Sim. Nós podemos mudar o mundo.
1968. No ano que não terminou – segundo Zuenir Ventura – Geraldo Vandré, levantava multidões com seu inflamado “para dizer que não falei de flores”. A época conturbada do regime militar gerava na, atualmente denominada, geração baby boomers desejos de mudar o mundo e transformar a sociedade em um lugar melhor para se viver.
Do movimento hippie do icônico “paz e amor” à luta armada contra o sistema militar que já dava ares de ditadura, o cenário mostrava a esquizofrenia vivida naqueles tempos, porém, que partilhava de um objetivo comum: mudar o mundo – algo que valia a vida e, muitas vezes, a morte.
Décadas se passaram e o desejo de mudar o mundo da geração que sobreviveu às loucuras dos anos 60 e 70 arrefeceu com a necessidade de pagar as contas nos anos 80 e 90. A roupa colorida deu lugar ao terno cinza. A mochila de lã, comprada na Bolívia, à maleta 007.
As pessoas vem e vão, mas o desejo de transformar o mundo continua latente como uma reminiscência de nossa espécie. É algo, ainda que vago, inerente ao ser humano. Muitos, absorvidos pelas tarefas cotidianas, não se deram conta do quanto o mundo vem se transformando nas últimas décadas em direção a essa vontade transformadora. Desde a queda do muro em 89, a sociedade tomou consciência de que poderia de fato mudar sua realidade se unindo em números cada vez maiores. Que a menor célula da sociedade – o cidadão – poderia iniciar uma revolução.
Vimos o desenvolvimento do terceiro setor, lideranças globais lutando em prol de um estilo de vida mais sustentável, a exigência cada vez maior de transparência por parte das empresas além de derrubadas de governos e movimentos sociais cada vez mais intensos.
Lógico que também vimos guerras motivadas por interesses individuais, crises geradas pela ganância e mortes causadas por motivos frívolos. A grande mudança reside no fato de que, diante de tais acontecimentos que sempre foram tão comuns ao longo dos séculos, estamos começando a questionar o nosso papel nesse mundo e repudiar com cada vez mais veemência tais atos.
Diante de situações cataclísmicas causadas pelo “Homo industrialis” ou de guerras motivadas por interesses camuflados, o cidadão comum, até então voz velada, passa a lutar para dirigir sua própria vida sem o apelo demagógico das seculares corporações voltadas exclusivamente para o lucro a qualquer preço . Seja aderindo e divulgando uma causa, seja boicotando uma marca, seja escolhendo um estilo de vida mais simples, porém, junto à família. Há um movimento do “nós” que toma conta das pessoas e muda mercados.
A sutil e gradual mudança na maneira de pensar de muitas pessoas se mostra como uma revolução subreptícia. Sem o fervor bélico das revoluções passadas, mas a cada indignação diante da morte vazia de uma criança em um assalto ou no descaso de uma empresa com um cliente. A revolta das massas que descobrem ter voz para mudar o mundo começa com um post em um blog ou um simples tweet.
Em meio a um quadro de mudança social, em meados da década de 90 algo de novo vem a tona. Timidamente no início, toma de assalto empresas, governos e setores inteiros da sociedade. A internet.
A grande rede, que conecta pessoas em todo as partes transformando o próprio planeta em um grande cérebro, vem como uma resposta para o desejo de transformação que já era um brado uníssono em povos de praticamente todo o mundo. A internet muda a economia ao passo que transforma o dinheiro em bits que trafegam livremente sem pátria e, tal qual Einstein postulou, dobra o espaço-tempo, colocando em uma mesma sala de bate-papo pessoas que se encontram fisicamente nos mais diversos lugares do mundo.
A internet muda a realidade das empresas na medida em que torna possível seu crescimento com menos risco e mais rentabilidade. Ao mesmo tempo que traz a ameaça da reclamação em grupo, traz a oportunidade do elogio, também em grupo.
Dinheiro, que sempre movimentou o mundo, não passa hoje de sequências numéricas na tela do seu notebook (ou smartphone). A “ponte aérea monetária” EUA-Europa agora é mais facilmente deslocada para uma start-up de um país “emergente” por intermédio de um meio que ignora o espaço. As micro e pequenas empresas – base da economia de um país e do fomento de melhores condições de vida local – agora tem vez e voz para mostrar ao mundo a qualidade de seu trabalho e, assim, dar uma vida mais digna aos seus proprietários e colaboradores. Exemplos não faltam, seja no Brasil ou na Índia, seja no Paquistão ou Bangladesh.
A internet muda regimes governamentais totalitaristas promovendo a democracia como um caminho natural, o melhor até então, que promove o bem comum, não o interesse individual.
Pela primeira vez as condições de vida de um ser humano podem não estar vinculadas ao lugar onde ele nasceu. Um computador antigo e uma linha de telefone abrem uma janela para o mundo e mostra a realidade possível em outras culturas.
Regimes de partido único, que antes controlavam a população por meio do controle extremo, hoje já sentem dificuldades em dispersar reuniões que engendram contra o sistema, não mais em uma célula de resistência – lugar físico facilmente detectável – mas na internet – um lugar virtual muito mais difícil de ser controlado.
As revoluções nos países árabes parecem ser a melhor metáfora para a frase de Schopenhauer: “Todo homem toma os limites de seu próprio campo de visão como os limites do mundo”. A internet amplia os limites do mundo dos jovens árabes que descobrem outras vias possíveis em outras povos e que anseiam viver em um país sem censura, sem controle, sem repressão. A motivação é a vontade de mudarem suas realidades. A principal arma, como afirmou Tifatul Sembiring, ministro indonésio das Comunicações, as redes sociais. Egito, Síria, Líbia, Tunísia foram apenas os primeiros sintomas da exigência da população que não aceita mais ser usada como massa de manobra. Indivíduos que querem ser tratados com as prerrogativas que o próprio nome deveria lhes atribuir – individualidade, seja na maneira de pensar e agir, seja nas palavras que escolhe para criticar ou elogiar governos e marcas.
A internet muda a economia industrial até então baseada no consumo como maneira de prosperidade de uma nação.
Uma informação estarrecedora se torna necessária nesse ponto. Para cada uma lata de lixo que geramos em nossas casas, outras setenta latas foram geradas na indústria para produzir o que hoje jogamos fora. Quanto mais a “obsolescência planejada” entra em nossas vidas, mais compramos e, portanto, mais lixo geramos.
Só o lixo que se acumula nos oceanos já representa 25% da área de todo o nosso planeta, “um enorme vaso sanitário que nunca dá descarga”, segundo Charles Moore – marinheiro e ambientalista descobridor da desconcertante “mancha do Pacífico”.
Para frear, um pouco que seja, a compra desenfreada no qual consiste o nosso modelo econômico baseado em produção industrial e estímulo ao consumo, um movimento está tomando de assalto nossa maneira de ver a vida baseada em marcas: o consumo colaborativo.
Por meio de site baseados no conceito de redes sociais, pessoas estão compartilhando e doando de roupas a bicicletas que não precisarão ser comprados diminuindo o lixo pessoal e a produção industrial voltada para o consumo – que gera ainda mais lixo. No ThredUp, pessoas compartilham roupas infantis. Foram 12 mil itens negociados nos 8 primeiros dias de funcionamento do site. No SharedEarth, 2 milhões de metros quadrados de terra excedente foram compartilhados com produtores potenciais sem jardim apenas nos 3 meses de funcionamento do site. No Freecycle 5,7 milhões de usuários em 85 países doam mais de 12 mil itens por dia pelo site.
A internet muda o cenário das ONGs por todo o mundo colocando pessoas que precisam e pessoas que desejam ajudar em contato por meio da rede.
A Surfrider, fundação para a proteção de oceanos e praias, teve mais de 145 mil horas de voluntariado de pessoas que atuam localmente e online desenvolvendo conversas nas redes sociais. O aplicativo “Causes” no Facebook, utilizado para levantar dinheiro para causas humanitárias, tem até o presente momento – dia 19 de julho, às 23h15 – 7.390.747 de usuários mensais. A internet foi a principal responsável por espalhar o movimento “Free Hug” pelo mundo a partir de um vídeo postado no YouTube que já teve mais de 60 milhões de visualizações. As pessoas que participam do movimento, simplesmente distribuem abraços grátis.
A educação tem sido uma outra área em que a internet tem transformado vidas. Sugata Mitra com seu projeto entitulado “buraco na parede”, que em 1999 embutiu um computador ligado à internet em uma bairro pobre de Nova Deli e percebeu que as crianças aprenderam muita coisa sozinhas ao interagir com uma máquina que a grande maioria delas nunca sequer tinha visto. O indiano Salman khan, que foi notícia em praticamente todo o mundo, que ajuda gratuitamente crianças a entender matérias como matemática, física e biologia por meio de vídeos no YouTube.
Na medicina a rede social PatientsLikeMe ajuda centenas de milhares de pessoas que compartilham informações sobre doenças dos mais diversos tipos a encontrarem novos tratamentos e maneiras de lidar com suas enfermidades a partir da experiência do outro, esteja este em qualquer lugar do mundo físico, mas no mesmo lugar no mundo virtual. No jornalismo a teoria da “Agenda-settings” cai por terra quando damos ao leitor o poder de ser o editor da sua própria notícia. Vários veículos começam a explorar o modelo de negócios do jornalismo cidadão, em que qualquer cidadão munido de um celular com câmera e acesso a internet, vira repórter. O fim do “furo” jornalístico.
Nem vou comentar sobre softwares de código aberto sendo construídos de maneira colaborativa por desenvolvedores em todo o mundo, compras coletivas, inovação aberta em sites como o Innocentive auxiliando empresa a economizarem fortunas ou Zoopa gerando qualidade a partir da quantidade em um processo de “crowdsourcing”, educação à distância em cursos gratuitos da aclamada Harvard University disponíveis para qualquer um que domine minimamente o idioma inglês – ou aulas de inglês gratuitas pela internet no site da BBC ou em redes sociais dedicadas ao ensino de idiomas como o Livemocha – e outros temas que tantos outros já falaram.
A internet não é mais (se é que foi um dia) um meio para se enviar e-mails e criar perfis no Facebook. É muito mais. É a ferramenta que faltou na década de 60 para que nossos baby boomers pudessem levar a cabo seu objetivo de mudar o mundo. Não é de se espantar que nossa geração Y queira transformar a sociedade. Ela tem a motivação, a autoestima necessária e, principalmente, as ferramentas para isso.
A internet é muito mais do que uma revolução tecnológica, é uma revolução social. Vivemos em uma era que daqui a poucos anos conheceremos, juntamente com a revolução industrial ou a revolução francesa, a revolução digital. O período que passamos irá criar um marco histórico que mudará o planeta. A era de transição já está acontecendo há anos, mas, assim como um francês no meio da revolução francesa só pensava em escapar dos tiros e da guilhotina, estamos tentando nos encontrar em meio a tweets e aplicativos de iPhone. Não reconhecemos o local do redemoinho que nos encontramos. Precisamos de distanciamento.
Se haverá um fim do mundo em 2012, será o fim de uma velha consciência que nos trouxe em muitos campos a situações degradantes. Temos cerca de 1 bilhão de pessoas no mundo que, mesmo com todo avanço tecnológico na área agrícola, ainda passa fome. A mortalidade infantil é maior do que cem para cada cem mil habitantes em países da África subsaariana. Ainda temos regimes escravos de trabalho, tráfico de mulheres e violência doméstica em índices alarmantes.
Acredito na internet como um ambiente em que a troca de informações entre pessoas dos mais diversos povos – nem a diferença de idiomas será mais empecilho com ferramentas como tradutores do Google em tempo real – fará com que as pessoas enxerguem o ponto de vista do outro. Boa parte das brigas e guerras ocorrem justamente pela falta de compreensão do ponto de vista alheio. Podemos resolver isso com a troca. Com a conversa no mesmo local virtual.
Não há limites para o que a humanidade pode fazer ao utilizar corretamente esse imenso cérebro global. A rede como o espelho da própria humanidade pode fazer com que, finalmente, encontremos a solução para os nossas mazelas – nos conhecermos como espécie e como indivíduos.