Quebrou? Então não suma!

Em um domingo, quando estava dando uma palestra, no final um casal veio me procurar para falar que quebrou, mas estava de pé e lutando. Dei algumas dicas de como passar por essa situação, mas acho que não falei tudo que poderia falar.

Resolvi escrever esse artigo para falar mais sobre esse período delicado para eles (caso leiam) e para quem estiver precisando. Se souber de alguém com quem se importe e que esteja passando por isso, compartilhe o texto (copie e cole em privado mesmo. Isso pode salvar uma vida).

Em 2000 eu estava completamente quebrado. Não tinha dinheiro nem para comer. Minha auto-estima estava no lixo e minha saúde já estava dando sinais de os próximos 2 anos iam ser os piores da minha vida.

Minha empresa – um cursinho pré-vestibular que eu sonhei em ser uma das maiores empresas de educação do país – tinha quebrado e eu me achava um incompetente, um fracassado, um nada.

Durante vários dias, eu tinha que escolher se eu ia pegar um ônibus ou almoçar. O dinheiro não dava para as duas coisas no mesmo dia. Eu dava aulas particulares a R$6 por hora e pagava minhas dívidas com esse dinheiro. Ou seja, ia demorar uma vida para pagar todas se eu continuasse assim.

Continuei morando em Campinas. Por alguma razão, minha mente me dizia que se eu saísse da cidade e voltasse para a casa da minha mãe, soaria para mim mesmo como se eu estivesse fugindo. E eu não sou de fugir de nada. Mas a dor era tanta que me isolei do mundo.

Estava com tanta vergonha do mundo – por conta dos mais de R$200 mil em dívidas e achando que minha carreira de empreendedor tinha acabado ali – que mudei para uma república perto da universidade (entrei na Unicamp para conseguir morar de graça na moradia estudantil e comer a R$2 no bandejão) e fiquei lá chorando minhas mágoas.

Foram 2 longos anos assim…

Eu, na minha imaturidade (e, principalmente, orgulho) dos 26 anos, cometi alguns erros:

O primeiro foi o de não me levantar logo e dar a volta por cima, mostrando ao mundo (e para mim mesmo) que eu não tinha desistido. Guarde isso: o jogo só termina quando você decide que terminou. Eu achei que tinha terminado. Erro meu.

O segundo erro foi de não dar satisfação para meus credores – principalmente bancos e alguns professores que fiquei devendo 1 ou 2 meses. Os bancos eu resolvi ao longo de 5 anos pagando a dívida com muito trabalho. Quanto aos professores, a maioria entendeu que eu estava muito pior do que eles e nem foram me cobrar.

O problema foi que, o fato de eu ter simplesmente me enfiado dentro de um buraco muito fundo deu origem a todo tipo de boato. “Conrado fugiu com o dinheiro do cursinho“, “Conrado ficou rico e resolveu largar tudo” etc.

Como se enganam aqueles que não sabem qual a dura realidade do empresário brasileiro…

Quando você não está lá para dar a sua versão e dar a cara a tapa, as versões falsas ganham vida e viram verdade. Esse foi o meu maior erro. Não estar lá para dar a minha versão. Até hoje ainda tem gente que acredita que eu dei um golpe ou algo assim. Isso é triste, mas foi apenas uma consequência do meu erro primário de não encarar a realidade há 17 anos atrás.

Bom…a vida é uma excelente professora, só que é muito severa e bate muito forte. Tome esse texto como uma lição para que a vida não tenha que dá-la ela mesma. Aqui dói bem menos.

A grande lição que aprendi e passo para você, caso esteja em uma situação semelhante, é: não suma, por mais dolorida que esteja sua situação.

Ligue para seus credores pelo menos uma vez por mês. Explique o que está fazendo para pagá-los, mesmo que isso vá demorar a acontecer ou aconteça em pequenas parcelas. Esteja presente.

Aguente as reclamações e seja totalmente sincero e solidário. Seus fornecedores também podem estar perto de quebrar porque não estão recebendo de você. O banco não se enquadra nesse caso. Pague primeiro quem mais precisa, não quem cobra ou grita mais alto.

Isso lhe deixará mais em paz com sua consciência.

Venda seus móveis, suas roupas, seu carro, seu apartamento ou o que quer que seja, mas pague suas dívidas. Honre o seu nome custe o que custar. Isso vai fazer muita diferença no futuro breve.

Para quem já passou por isso, sabe que a vergonha é maior do que tudo, o sentimento de fracasso, de ter decepcionado a família e os colaboradores. A humilhação de ouvir o famoso “eu te disse“, “eu avisei, mas você é teimoso feito uma mula“.

A vergonha de se olhar no espelho. A depressão e a tristeza são muito grandes. Daí, para entrar em alguma enrascada como remédios ou coisa pior é um único passo. Mas isso não vai aliviar a sua dor. Só vai mascará-la e aliviá-la momentaneamente.

Quando quebrei e fui para a Unicamp, bebi tudo o que eu podia e mais um pouco. Tentando me dopar para não encarar a realidade. Ainda bem que algo na minha mente me dizia que eu só podia ir até ali. Se eu tivesse ido mais longe, talvez não estivesse aqui te escrevendo esse post. Bebidas ou coisas piores não vão resolver.

Diante de todo o caos que sua vida pode se transformar se você quebrar, a reação normal é se recolher para passar pelo processo de luto (que demora pelo menos 2 anos), porém, desculpe-me dizer isso, mas essa não é uma opção. Você tem que continuar de pé o máximo que aguentar.

Apesar do desejo de desaparecer do mundo, é importante lutar para continuar com alguma parte do trem ainda minimamente nos trilhos e não deixar que o presente atrapalhe em muito o seu futuro (e abale ainda mais a confiança do mercado em você).

Pense nos grandes empresários. Todos tiveram muitos revezes em suas vidas. O fato de não terem desistido foi o que fez com que você escute falar deles hoje.

As suas atitudes é que vão mostrar quem de fato você é sob pressão. Você pode reagir logo ou em alguns anos. Melhor que seja logo para não alimentar boatos.

Está passando por uma situação difícil?

Saiba que muitos já passaram por situações até piores, mas não é todo mundo que escreve um post como esse para contar as mazelas e as quedas. Parece que todos são vencedores, não é mesmo? Que ninguém teve problemas.

Todos são melhores e mais inteligente do que você (principalmente aqueles que lhe fazem críticas disfarçadas de conselhos e preocupação).

Não se iluda. Todos têm toneladas de problemas e já passaram por batalhas que você nem imagina. Então, não ache que é o único privilegiado a ter uma falência na sua vida. Saiba que quando se abrir com o mundo sobre sua situação, seja ela qual for, encontrará 4 tipos pessoas:

– as que ficarão indiferentes a você
– as que vão se afastar de você
– as que vão criticar ainda mais você
– as que ficarão do seu lado e serão solidárias pois sabem o quanto está doendo.

Se apoie nesse último grupo e se levante o mais rápido possível.

Um ano antes da minha falência, minha festa de aniversário tinha umas 300 pessoas. Depois da minha falência, minha festa de aniversário tinha 2 pessoas. Poucas? De jeito nenhum. As outras não estavam de fato do meu lado. Estavam apenas na minha festa.

Corrigindo: algumas daquelas 300 estariam do meu lado quando quebrei, mas eu não dei chance. Não cometa o mesmo erro que eu.

Você não tem com quem conversar e nem tem forças para tal. Mas é preciso arrancar forças de algum lugar (arranque do amor aos seus filhos, do amor aos seus pais ou do amor ao seu parceiro ou parceira. O amor é o que mais vai lhe dar forças).

No início, as críticas doíam. “Será que eles não entenderam que eu quebrei mesmo tentando fazer tudo que estava ao meu alcance?“.

Não. Eles não entenderam. Por um simples motivo: eu não expliquei…

Vai demorar alguns anos para você se levantar de vez. Talvez 2, talvez 5, talvez 10, porém, quanto mais demorar para se levantar, pior. Se levante logo, esteja você psiquicamente bem ou não. Se levante mesmo assim e vá à luta.

Você vai perceber como que estar em atividade vai fazer com que sua saúde mental melhore mais rapidamente. Não vai ser nada fácil, mas você sairá do outro lado renovado e muito mais forte.

Posso dizer isso porque sei exatamente como o processo funciona. Acredite em mim. Já passei por isso e sai do outro lado muito mais forte, muito mais humilde e mais cuidadoso (mas não medroso).

Vai dar tudo certo!

  • Priscila

    Muito obrigada Conrado, essa artigo veio em uma boa hora para mim.

  • Priscila

    Muito obrigada, Conrado!
    Esse artigo veio em um momento que estou precisando muito, mas tenho fé em Deus que vou conseguir me erguer e continuar lutando.

  • Felipe

    Muito bom esse post. Parece coisa do universo kkk veio na hora que eu precisava ouvir uma história dessas sempre faz a gente seguir em frente.

  • Sueli Brandão

    Senti muita emoção neste post! Obrigada por compartilhar tudo isto conosco 🙂 Gratidão.

  • Silene Morikawa

    Obrigada por compartilhar. Estou ouvindo seus podcasts enquanto faço ginástica e estou aprendendo demais com esses materiais. Um dia eu vou participar ainda da sua mentoria. Fui sua aluna no MBA de Marketing na ESPM em 2011. Abs

  • Jose Aluisio Nunes Da Silva

    Obrigado pela mensagem. Uma excelente dica de mindset. Mais uma vez obrigado e um abraço.

  • Agnaldo

    Tenho lido de um tudo ultimamente. Algumas coisas me tocaram e outras não me disseram nada. Mas este seu post, fez com que eu lesse cada palavra até a ultima.
    Pode ter a certeza como eu tive ao chegar no final, aprendi sim, algo, e pretendo usar para não ter o privilégio ou o desprazer de ser outro a contar a mesma história. Só temos, eu e outros que conseguiram não só entender, mas compreender o que essas palavras tem a ensinar, agradecer o ensinamento proposto. Obrigado Conrado!