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Considerações sobre o Real Valor das Redes Sociais

Ás vezes me lembro da minha época de cursinho pré-vestibular. Eu queria alcançar algo que a maioria considerava impossível – passar no ITA. A estratégia era “estude o máximo que você puder e não olhe para os lados”. Deu certo, porém, relembrando daquela época posso concluir algumas coisas bem interessantes.

Primeiramente, os alunos que ali estavam, com o mesmo objetivo que eu, estudavam de forma intensa e incessante – o que eu chamo carinhosamente de “estudar de forma insana”. O mundo se resumia a estudar – e de vez em quando descer para a cantina para comer um salgado e discutir sobre os problemas insolúveis do último simulado.

Socialmente, em um estado de privação de todos os outros estímulos externos, o mundo passa a ser aquele e as regras que passam a valer são as que o definem – “o homem toma como os limites do mundo seu próprio campo de visão”.

Em todo sistema, seja ele qual for, há o conceito de valor.
Na universidade, o conceito de valor está aliado a títulos e conhecimento.
No mundo animal está associado a força e rapidez.
No mundo dos programadores está associado a códigos limpos e velocidade de programação.
No mundo dos marginais e fascínoras, quantos você matou e com que requintes de crueldade.

No cursinho, porém, o conceito de valor estava intimamente ligado ao seu ranking mensal (classificação baseada no conjunto de notas dos seus simulados).
Quanto melhor o ranking mais você era visto com adoração e respeito. As notas representavam uma moeda. uma espécie de riqueza intelectual.

O ser humano sempre cria suas moedas de acordo com o sistema no qual vive.
Na Internet não é diferente. Atualmente, temos uma grande quantidade de pessoas “vivendo” online boa parte de seus dias (e, principalmente, noites).
Para muitos desse grupo, que se torna cada vez maior, a tal “moeda” é a quantidade de “amigos” que se tem na rede. Seja no Twitter, seja no Orkut, seja no Facebook ou no LinkedIn.

Pelo menos uma ou duas vezes por semana recebo convites de pessoas que fazem amigos em redes sociais de forma profissional. “Quebram brinquedos” 🙂 e se dedicam verdadeiramente a isso. É a moeda desse mercado – a quantidade de “amigos”.

Todos os dias recebo convites para me tornar amigo de muitas pessoas que nunca vi, tanto em redes famosas, como Orkut, até as mais obscuras como “MeusParentes.com”. No meu caso, muitas dessas pessoas são leitores do meu livro – Google Marketing, mas também recebo convites de pessoas que simplesmente querem um grande número de contatos em suas redes.
Nada contra a querer ter um milhão de “amigos”, mas até que ponto isso é realmente válido?

Revisitando Maslow e sua famosa pirâmide, vemos que o ser humano tem necessidades crescentes passando por:
– necessidades fisiológicas (comida, água, sexo, sono, respiração etc.)
– necessidades de segurança (emprego, recursos, saúde, propriedade, etc.)
– necessidades de relacionamento (amizade, família, intimidade social)
– necessidades de estima (reconhecimento, conquistas, auto-estima)
– necessidades de realização pessoal (ausência de preconceito, aceitação dos fatos, criação de um sistema de valores pessoais, etc.)

Sendo a Internet uma rede pessoas (e não de computadores), posso dizer que, se a pirâmide de Maslow tem seu fundo de verdade, a internet a segue fielmente, e em larga escala.

Posso afirmar também que estamos em algum ponto entre as necessidades de relacionamento e a necessidade de estima.

O Rei Roberto Carlos (acho que Erasmo também) cantava com sua voz inconfundível “eu quero ter um milhão de amigos” e parece ser esse o mantra entoado por estes que fazem da “amizade” um negócio. A quantidade de “amigos” que você adquire nesse mundo hiperconectado pode transformá-lo em veículo, em mídia. Você passa a ter Ibope e a ser medido pela quantidade de pessoas que você consegue entrar em contato rapidamente. Que mundo louco, esse, não?

Imagine divulgar uma certa marca para seus 20 mil seguidores no Twitter. Fazer com que a marca em questão pegue uma bela carona na reputação que você usufrui perante aos seus “amigos” e amigos.

A pirâmide de Maslow, contudo, está sempre evoluindo.

Antes tinhamos somente as necessidades de existirmos na Internet, entre 95 e 2001, o que associo às necessidades fisiológicas.
Após a famosa “bolha”, passamos a ter a necessidade de construir nossa existência digital de maneira mais sólida, com modelos de negócio mais confiáveis e racionais – entre 2001 e 2006.

A partir de 2006/2007 – coincidindo com a escolha de “You” como a personalidade do ano pela Revista Time, passamos a viver em uma grande aldeia digital compartilhando conteúdo em rede e formando comunidades. Nossas necessidades de relacionamento começavam a se satisfazer.

Hoje estamos saindo das necessidades de relacionamento e entrando nas necessidades de estima digital. Precisamos do reconhecimento digital dos nossos pares e, para isso, criamos a moeda desse novo mundo – o número de amigos na rede.

Para gerar valor para essa incompreensível “moeda social”, colecionamos depoimentos no Orkut, comentários em nosso blog, seguidores no Twitter, testemunhais no LinkedIn e outras formas de valor social.

Alguém com 10 mil seguidores no Twitter é quase visto como um semi-Deus. Digno de respeito e adoração nesse mundo curioso. Alguém dotado de grande “riqueza social”. De fato, entramos em uma era em que o econômico cede espaço ao social.

Porém, o que sustenta a sociedade de pé ainda é o “econômico”. O erro da “bolha” foi justamente confundir tráfego com receita. Idéias estapafúrdias com inovação eficiente.

Às vezes me pergunto se algumas empresas não estariam embarcando em uma segunda bolha?

O que antes era a Internet irracional pela hipervalorização de idéias sem modelos sólidos de receita não estaria se tornando agora a mesma Internet irracional pela supervalorização de redes sociais não sólidas baseadas em quantidade e não em qualidade?

Não estariam alguns experientes internautas confundindo confiança pessoal com a mesma velha mídia de massa, só que com uma nova roupagem?

Como diria o nosso saudoso Gonzaguinha,
“São perguntas tão tolas de uma pessoa.
Não ligue, não ouça são pontos de interrogação”

Só o tempo respoderam tais perguntas, porém, tenho minhas dúvidas sobre o real valor da moeda social para alguns tipos de negócio.
O mercado ainda enxerga lucros e algumas iniciativas de simplesmente ter o maior número de “amigos” possível na rede não necessariamente representa um capital social sólido. Na realidade, este pode ser tão frágil como IPOs de empresas que vendiam beterrabas e repolhos pela internet via e-commerce nos idos de 2001.

Enquanto isso, vou aceitando e rejeitando convites e esperando ansiosamente que passemos para o próximo degrau da pirâmide.

Conrado Adolpho

Minha missão no mundo: "Construir um mundo melhor por meio da internet". Autor do livro "Os 8Ps do Marketing Digital" e entusiasta da internet como fenômeno social.

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