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O dia em que me senti em 1964.

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Em 93, eu entrei no ITA. Depois de 3 anos de cursinho estudando de maneira violenta, finalmente realizei meu sonho. Mas não demorou muito para eu descobrir que tinha cometido um erro.

Logo no 2º ano fui trancado e, no ano seguinte, resolvi chutar o balde e abandonar tudo no final de 95 (3 anos de cursinho para estudar 3 anos na faculdade. Essa conta nunca fechou direito na minha cabeça). Mas isso todo mundo sabe, pois já contei em inúmeros podcasts. O que você talvez não saiba foi o que aconteceu entre a minha saída do ITA e a minha chegada em Campinas.

No final de 95, eu já estava brigando com amigos, não comia direito, acordava meio-dia, não frequentava as aulas e não aguentava mais a pressão de ficar em um lugar que não me fazia bem. Foi um período que demorei muito para fazer as pazes comigo mesmo… Aliás, nem sei se já fiz essas pazes.

Eu estava emocionalmente destruído. Ficar 3 anos em um lugar que você não está feliz, sem dinheiro para nada (pedindo dinheiro emprestado para todos os amigos e até para os não-tão-amigos, repensando todos os dias se você não perdeu anos e anos da sua vida etc…) é bem difícil.

E imaginar que tem tanta gente que se sujeita a isso por não ter nenhuma outra opção. A vida é tão linda do lado de fora da infelicidade. Tome uma decisão logo antes que a vida tome essa decisão por você.

Depois de ter sido desligado (abandono de faculdade dá desligamento, rs), resolvi mudar para Campinas, mas ainda não tinha arrumado um lugar para morar aqui. Então, resolvi voltar para o alojamento do ITA (em São José dos Campos) para ficar próximo a Campinas até conseguir algum lugar aqui.

Era normal e muita gente fazia isso até conseguir se arrumar minimamente na vida depois de ter saído de lá. Só que em uma dessas vezes (devo ter voltado para lá umas 3 ou 4 vezes) aconteceu a coisa mais surreal do mundo por lá.

No dia 6 de março de 96, os militares cercaram todo o H8 (alojamento dos alunos) para verificar todos os moradores porque havia alguns “ilegais” dentro do alojamento. Eu era um deles. 

Mas não era só eu. Tinha muito mais gente que estava lá por um motivo ou por outro. Quando os militares invadiram o quarto, umas 07h ou 08h da manhã, eu estava dormindo.

Enquanto os militares estavam em um dos quartos verificando os nomes de cada um dos moradores (um deles era um mestrando com uma das maiores notas do mestrado – também “ilegal”), um dos meus colegas de quarto me acordou me fazendo um gesto de “shhhhh… não faz ba-ru-lho“. Esse gesto assusta qualquer um.

Pé ante pé, fui me esconder no armário para entender que diabos estava acontecendo. Ouvindo a conversa do militar com os moradores do quarto, entendi. E o que eu ouvi não era bom. Eu descobri que eu estava ilegal dentro de uma base militar.

Me senti em um capítulo do “Anos Rebeldes“. Me escondendo dos militares para não ser pego como ilegal dentro de uma base militar.

Após os militares saírem do quarto para verificarem os outros quartos, trancamos a porta e ficamos olhando o que estava acontecendo.

Os corredores lotados de PAs (Policia da Aeronáutica) e todo o alojamento dos alunos completamente cercado com guardas armados (!). Isso tudo para checar a legalidade de nerds na faixa dos 20 anos e que só sabiam estudar e falar bobagens.

Saí do CTA, escondido no porta-malas de uma Variante II, do meu grande amigo Luciano Oliveira para me mudar para Campinas. Ainda voltei lá 1 ou 2 vezes, mas ainda com a lembrança estranha daquela quarta-feira non-sense.

A gente passa por cada uma. Essa experiência me transformou e me fez ver que a vida pode ser bem estranha. Quando cheguei em Campinas ainda passei uns bons anos e me ferrei muito para sobreviver. E tudo isso por acreditar que eu poderia ir mais longe e ser feliz.

Ainda bem que deu certo. Mas foi por muito pouco.

Lembro dessa história constantemente. Se alguém acha que a vida é fácil, faz-me rir! rs 

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